Esportes

Sensei baiano retorna às origens e transforma a vida de jovens por meio do karatê em Salvador

11 de Agosto de 2026 -Redação Cabula agora
[Sensei baiano retorna às origens e transforma a vida de jovens por meio do karatê em Salvador]

Foto: Acervo pessoal

O karatê que abriu novas possibilidades para Ronaldier Rodrigues durante a infância tornou-se, mais de quatro décadas depois, um instrumento de transformação social. Pentacampeão mundial, o sensei voltou ao bairro onde iniciou sua trajetória para oferecer gratuitamente a crianças e adolescentes a mesma oportunidade que um dia recebeu.
Atualmente, o projeto do qual Ronaldier participa atende aproximadamente 150 alunos nas comunidades de Pernambués e da Liberdade, em Salvador. A procura, entretanto, é muito maior: mais de 200 jovens aguardam uma oportunidade para entrar nas turmas.
A falta de recursos, equipamentos e estrutura impede que todos sejam acolhidos. Em entrevista ao Bahia Notícias, Ronaldier explicou que sua dedicação ao trabalho social está diretamente ligada à própria história.
“Sou oriundo de um projeto como esse e, coincidentemente, hoje trabalho no mesmo bairro onde comecei. Fui convidado pelo Grupo Alerta Pernambués para desenvolver essa atividade por causa dos benefícios que o karatê trouxe para a minha vida. Aceitei prontamente”, contou.
Faixa-preta 6º Dan, Ronaldier acumula diferentes funções na modalidade. Além de atleta e treinador, ele é técnico da Seleção Baiana de Karatê Tradicional e presidente da Federação Baiana de Karatê Tradicional.
Antes de iniciar o trabalho em Pernambués, o professor já participava de uma iniciativa semelhante no Colégio Luís Pinto de Carvalho, localizado no bairro de São Caetano.
Mesmo com cinco títulos mundiais e uma trajetória consolidada no esporte, Ronaldier considera que uma de suas maiores conquistas é poder utilizar o karatê para influenciar positivamente a formação dos alunos.
Para o sensei, o projeto também representa uma maneira de retribuir as oportunidades que recebeu ao longo da vida e de mostrar aos jovens novos caminhos por meio do esporte.
Atividades são totalmente gratuitas
As aulas são oferecidas sem qualquer cobrança. Os alunos não pagam mensalidades, exames para mudança de faixa ou inscrições em competições. Quimonos, luvas e outros materiais também são disponibilizados pelo projeto.
A proposta é impedir que a situação financeira das famílias se transforme em uma barreira para o acesso ao esporte. Considerando alunos, familiares, professores e voluntários, a iniciativa alcança direta ou indiretamente cerca de 500 pessoas.
Apesar do impacto social, a estrutura disponível ainda não permite atender toda a demanda. Ronaldier afirma que uma das situações mais difíceis é precisar recusar a inscrição de crianças e adolescentes interessados.
“É frustrante porque conhecemos todos os benefícios que o karatê pode trazer para a sociedade. É muito ruim precisar dizer não e deixar de receber mais crianças por falta de incentivo e estrutura”, lamentou.
O projeto possui o apoio do Grupo Alerta Pernambués (GAP) e do Sindilimp, mas busca ampliar a participação do poder público e de empresas privadas.
Segundo o sensei, a chegada de novos parceiros permitiria melhorar os espaços utilizados, comprar mais equipamentos e abrir vagas para uma parcela maior dos jovens que aguardam na fila.
“Se tivéssemos mais apoio governamental e do empresariado baiano, poderíamos oferecer tudo aquilo de que essas crianças precisam, na qualidade e na quantidade necessárias”, explicou.
Formação além do tatame
Durante as atividades, aprender técnicas de ataque e defesa representa apenas uma parte do treinamento. As aulas também trabalham disciplina, respeito, responsabilidade, equilíbrio emocional e perseverança.
Ronaldier defende que as artes marciais poderiam ocupar um espaço maior no ambiente escolar por contribuírem diretamente para a educação e a formação do caráter.
Para ele, a prática regular ensina os alunos a compreender regras, respeitar limites, lidar com frustrações e manter o foco diante das dificuldades.
O próprio sensei atribui ao karatê o desenvolvimento da coragem e da resistência emocional necessárias para enfrentar os obstáculos encontrados durante sua trajetória.
“O treinamento exige dedicação física, psicológica e emocional. Isso fez com que eu desenvolvesse uma postura mais positiva para enfrentar os problemas da vida”, relatou.
Esporte como alternativa à vulnerabilidade
Inserido em comunidades onde crianças e adolescentes convivem com diferentes situações de vulnerabilidade social, o projeto também apresenta o esporte como uma alternativa à violência, ao consumo de bebidas alcoólicas e ao uso de drogas.
Segundo Ronaldier, o karatê ocupa o tempo dos jovens com uma atividade saudável e ajuda a criar novas perspectivas de futuro. A convivência nos treinos também fortalece os vínculos entre alunos, familiares e comunidade.
O professor afirma que já acompanhou casos de antigos alunos que enfrentavam problemas relacionados à dependência química e conseguiram reorganizar a vida com o apoio da rotina esportiva e da rede de acolhimento.
“Quando alguém precisa deixar uma situação ruim, é importante preencher aquele espaço com outra atividade. Para muitas pessoas, o karatê cumpriu exatamente esse papel”, explicou.
Sonho de ampliar o projeto
Depois de mais de 40 anos dedicados à modalidade, Ronaldier ainda mantém um objetivo que vai além das competições e dos títulos: comandar um grande projeto social capaz de receber um número ainda maior de crianças e adolescentes.
Seu sonho é ampliar a estrutura, formar novas turmas e demonstrar, na prática, como as artes marciais podem contribuir para o desenvolvimento das comunidades.
Para o sensei, o karatê ajuda a construir o caráter ao ensinar disciplina, respeito, persistência e responsabilidade. Com mais investimentos e parcerias, ele acredita que o trabalho poderá alcançar centenas de jovens que ainda aguardam uma oportunidade.

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